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Mensagens

Fecha. Recomeça

É bom chegar ao fim do dia e baixar o ecrã de computador. A tecnologia criou.nos novos gestos, como este que encerra o dia, precedido pelo esvaziar da reciclagem. Arrumar é bom, encerrar ciclos também. A vida cresce sempre, desenvolve-se sempre e vai continuar a trazer coisas boas. Amanhã acordo às 7h para ir à praia. Que bom, que sorte! Agora baixo o ecrã, qual diástole.

Querido J

Querido J, Estou finalmente preparada para me despedir de ti com o mesmo amor com que fiquei. Escrevo-te com a cor do mar em dias de Verão, esse mar que cura e leva todas as coisas. As transforma. Tenho sonhado contigo nos últimos dias, com carinho. Lembro-me do teu cheiro, da tua pele lisa no peito e costas. Lembro-me da tua respiração ao dormir, de sentir quando chegavas a Lisboa ou qualquer outro lugar no mundo, independentemente do que estava a fazer no meu dia.A guiar, a tomar café, entre emails e reuniões de trabalho ou qualquer outro compromisso de agenda. O que me magoou já não magoa. Amei-te muito e sei que esse amor vai continuar a existir para além de nós da mesma maneira que a vista da minha antiga casa continua, apesar de eu já não morar lá e não a encontrar todas as manhãs. O amor, como a vista e o horizonte, existe desde o princípio dos tempos e não precisa de pessoas, existe por si. Este amor vai, assim, existir para além de nós. Voa e viaja, desenha cenários n...
I wanted to call you a different thing. Maybe we should have invented a new word to fit us. Silence was the worst choice. I loved you dearly and fully.

A maravilha

Entro neste espaço como se de uma casa se tratasse, uma casa que não piso há 10 anos. Toda a mobília está coberta de pó, o chão range, a madeira das janelas inchou e é preciso ajuda do cotovelo para as abrir. Tudo velho e enferrujado, uma maravilha chegar. Chegar finalmente. (as ferramentas de edição deste blog não acompanharam a tecnologia. Ainda bem. Gosto do design raw e pouco cuidado, estou cansada do que parece perfeito e do que automaticamente sincroniza e notifica. Tão bom)

I love you

Portugal

Eu sou Portugal quando penso antes de comprar um telefone se devo guardar o dinheiro para propinas ou livros do trabalho. Sou Portugal quando buzino, quando como corquetes em cocktails que não sei o que comemoram ou quem paga. Sou Portugal se acho que está bem reclamarem com o preço de fotocópias e a Cidade Universitária podia ser a "Cidade do Estacionamento" tal é o caos de carros e motas existentes. Sou Portugal quando espero que a mão do estado seja a minha mão, ou quando pactuo com partidos políticos que não têm como denominador comum o meu país mas o umbigo que quem os dirige. Não sou Portugal quando escolho deixar telefone para o próximo mês. Trabalho num local que é exemplo do que o trabalho árduo e concertado são capazes sem um tostão do estado, sem que as condições perfeitas existam porque é exactamente por não existirem que temos de as construir e realizar. Somos bem reconhecidos lá fora mas, curiosamente, quem o é anda a pé nas ruas de Amesterdão e Nova Iorque e c...

Roger

“Foi tudo tão rápido, embora goste de velocidades!” A primeira vez que falei contigo a sós foi por telefone. Queria pedir-te uma opinião, disseste “Sentamo-nos e explico-te tudo!”. Era um dia de trabalho. Achei estranhos a delicadeza e o cuidado. Pensei que fosse por ser amiga de amigos, por ter uma cadela bonita, por mil e uma coisas que não fossem a tua oferta sincera de tempo e presença. Planeámos a ninhada da Areia no Careca, onde nos viríamos a encontrar muitas vezes. Compraste um rádio e uns postais para os bebés cães terem música e paisagem quando estivéssemos longe. O teu cuidado. Através de ti conheci muitas pessoas. Eras um conector.Os teus pais, a tua casa, tantos dos teus amigos, a quinta, os carros, a igreja dos escuteiros, os planos de viagens, o clube do coração, os planos para jantar, um lanche, uma sardinhada, os festejos do europeu no capot do carro, a tua exigência de cantar o hino em pé, aos berros,antes do jogo começar. O movimento que se sentia à tua volta era o d...

dia 13

o sol voltou e amanhã vamos apanhá-lo juntas, mascaradas de pessoas de férias. recebi um presente que adorei dormi, acordei e dormi outra vez quero ir fazer uns cursos!

li -ber-da-de

"Nós viajamos muito.Somos muito nómadas e viajamos, às vezes, num tráfico incessante e louco entre nosso passado e o nosso futuro, entre o que fomos e o que seremos ou o que será - sobretudo um futuro indefinido, sem rosto, sem encontro. e buscamos, ou no passado, ou então na incerteza nebulosa futura, buscamos a sabedoria. Mas a sabedoria está no presente, no nosso presente. O "hoje" é o lugar da sabedoria." in o toque do presente, José Tolentino Mendonça

you

Acredito que a vida se desenvolve entre fraquezas e fragilidades, ambas com o mesmo poder, diferindo apenas na direcção de movimento que imprimem. Avanço ou recuo. Maior ou menor, mais ou menos rápido. Força é sinónimo de capacidade, fazer, acontecer, verbos que implicam um movimento ascendente que, por sua vez, pressupõem também uma mudança ascendente de futuro. Não quer dizer que essa melhoria venha a acontecer mas, na altura, é sentida dessa forma. Aproxima a esperança. Faz aprender, dá-nos a possibilidade de digerir o mundo, de o provar e levar à boca. Ficar saciado. Permite-nos ver para além do que fazemos, olhar o outro para onde vai, como caminha, surpreendendo-nos pela forma singular como coloca o pé e mexe as mãos. Somos iguais no mais simples e conseguimos, cada um, fazê-lo de forma diferente. Reconheço-te ao longe porque sei a tua forma de andar. Absorver a diferença faz-nos tomar consciência do que é semelhante e a ultrapassa em sentido e significado. Perceber isto faz co...
gostava de te contar como está tudo aqui. o mundo é tão impossível! a vida atravessa planos,faz tangentes a desejos e leva-os na curva. fazes-me duvidar do caminho para trás. é mais fácil pensar que morreste, que o fim foi de outra maneira. a morte tem um quê de ternura porque a sei inevitável. seria mais fácil guardar os dias felizes , as manhãs,os dedos na perfeição do vinte. construí bons muros com arcadas de promessa mas a tua ternura provou-se mais forte na seda e sede. a tangente aproximou-se da recta que desenhámos a quatro mãos e levou as tuas. distraíste-te. magoou-me a falta de atenção,ainda a julgar-te perto, a guardar espaço para ti nos meus dias e sono. não sei o teu último olhar.estávamos frente a frente e desviaste-o para um móvel, revista pousada, a sala igual e tu admirado. pensei em títulos de catástrofe no jornal sobre o acidente de avião em que descolei, mas ainda assim. voámos sem rede mil vezes e era ai que julgava ser também a tua casa. tens o instinto maior de l...
-fica hoje. -não. - janta cá. - tu estarias a pensar na comida e eu na fome do dia seguinte.
tenho saudades tuas isso eu sei porque eu sinto no meu peito essas ruas nunca imaginei um amor assim e agora até ficou real mas isso trouxe coisas atrás no momento de uma decisão percebes tudo o que o presente faz mesmo querendo ter alguém eu quero ter-me a mim mas meu amor nenhum de nós deixará de ser real passo por essas ruas isso eu sei porque eu sinto ter no meu peito coisas tuas manuel cruz
O Lopes vive em Campo de Ourique. Divorciado, joga ao king e à canasta nas noites de sexta e atravessa a pista do estádio universitário até o peito abrir fechar como acordeão aos sábados de manhã. Apara o bigode aos domingos e janta com a Mãe nessa mesma noite, tudo o mais são os percursos de autocarro até à oficina, regressando à noite. Acha-se bonito, as senhoras não. Reformou-se. Para encher o tempo antigo do autocarro e da oficina trocou-os pelo rio e anda a pé nos dias úteis. Pode levar um cão de um vizinho, “coitado do bicho nunca passeia!”, e à tarde trabalha a sério num anexo onde guarda tudo a que deitou a mão desde que era criança. Tralhas, os seus babetes, a fotografia “do meu menino tão lindo no baptizado” assinada pela Mãe e emoldurada a dourado, os óculos de massa do Pai, um urso de peluche com um olho e um arco amolgado que dantes descia a calçada sem hesitar a fazer “vvvvum vvvvum”. Agora tem um trabalho sério, de homem. Arrasta móveis de que não gosta de um lado para...

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"Morelliana, Penso nos gestos esquecidos, nos múltiplos acenos e palavras dos avós pouco a pouco perdidos, não herdados, caídos um a seguir ao outro da árvore do tempo. Esta noite encontrei uma vela em cima da mesa, e por brincadeira acendi-a e andei com ela pelo corredor. O ar do movimento ia apagá-la, então vi a minha mão esquerda levantar-se sozinha, fazer uma cova, proteger a chama como um abat-jour vivo que afastava o ar. Enquanto a chama se colocava novamente aberta, pensei que esse gesto tinha sido o de todos nós (pensei nós e pensei bem, ou senti bem) durante milhares de anos, desde a Idade do Fogo até ao dia em que no-lo trocaram pela luz eléctrica. Imaginei outros gestos, o das mulheres a levantarem a ponta das saias, o dos homens a procurarem o punho da espada. Como as palavras perdidas da infância, ouvidas pela última vez da boca dos velhos que iam morrendo. Em minha casa já ninguém diz a "cómoda de alcânfora", já ninguém fala dos "tripés". A mesma ...